As pessoas não precisam botar a mão no bolso para acessar
Facebook, Gmail, Twitter e outros tantos serviços que são oferecidos
gratuitamente pela internet. Mas você já parou pra pensar em quanto vale
essa gratuidade?
A contrapartida é o acesso a seus dados, que você fornece
aos sites, que depois os vende a anunciantes. Estes, por sua vez, usam
as informações para exibir propagandas direcionadas. O resultado é tão
preciso que a varejista norte-americana Target, por exemplo, consegue adivinhar quais clientes estão grávidas, e recentemente uma mulher mostrou que teve de trabalhar bastante para esconder a própria gravidez dos anunciantes de internet.
Mas se esses dados que o internauta passa gratuitamente são
repassados a terceiros em troca de dinheiro, o acesso continua sendo
gratuito?
O Idec (Instituto de Defesa do Consumidor) entende que é
preciso tomar cuidado com essa classificação. "Eu entendo que não é
gratuito no sentido de que 'não há nada em troca'", comenta a advogada
do órgão, Veridiana Alimonti. "Embora não se pague nada
financeiramente, existe algo que se dá em troca, nem sempre
conscientemente e em geral não tendo controle sobre isso [os dados]."
Professor de Comunicação Digital da Universidade de São Paulo, Luli Radfahrer
vê a situação de uma forma mais direta. Para ele, por exemplo, "o
Facebook tem 1 bilhão de produtos, que são os dados vendidos no atacado
para os anunciantes". Já as empresas pensam o contrário: o acesso é
indiscutivelmente gratuito - maiores em seus ramos, Google e Facebook
não quiseram se pronunciar oficialmente sobre o assunto.
Por que pensar nisso?
"É importante pensar em quais são as consequências de isso
ser ou não considerado gratuito", ressalta Veridiana. "Muitas vezes o
consumidor pode ter a impressão de que está recebendo todos esses
serviços e não está dando nada em troca."
Luli compara a situação com a de universidades e hospitais
públicos, que também não saem de graça, pois são pagos indiretamente.
"Se você tiver consciência disso, você passa a ter uma relação mais
madura [com o serviço]."
O problema, entretanto, não é vender informações, mas a
forma como isso é feito. Geralmente não há como acessar os dados para
fazer alterações que você considere importantes porque a coleta é feita
de forma automática e massiva. E muita gente só descobre que suas
informações estão sendo recolhidas quando topa com algum anúncio preciso
demais.
O Marco Civil da Internet, que passa a valer em junho,
prevê algumas regras sobre isso: tem de ficar claro que o internauta
aceita repassar dados para se tornar usuário de um serviço; ele precisa
ser informado sobre o que será feito com os dados e como eles serão
armazenados. A empresa por trás do serviço ainda é obrigada a se ater ao
que disse que faria com as informações.
O modelo é problemático?
Tanto a advogada do Idec, quanto o professor da USP
concordam que não seria saudável acabar com o formato atual, porque ele
não é necessariamente ruim, só precisa de ajustes.
"A gente vai acreditar e clicar cada vez menos em banner,
então a relação do cliente [com o anunciante] já não é tão boa. Com o
anúncio mais direcionado, o anúncio começa a fazer sentido e você pode
acabar querendo clicar", afirma Luli. "A relação [do internauta com o
anúncio] é de extremo ódio porque a publicidade não é funcional. Ela
vende porque é pentelha, mas poderia ser mais produtiva, mais
educativa."
Pagar para acessar Facebook ou Gmail e não ter de fornecer
dados está fora de cogitação; a própria rede social já cansou de negar
que tenha planos desse sentido. Além disso, os usuários dificilmente
acreditariam que a coleta seria interrompida.
"Eu não acho que tenha de existir ou só um modelo ou só
outro modelo", diz Veridiana. Para ela, basta ter transparência e seguir
os parâmetros definidos pela legislação.
Fonte: http://olhardigital.uol.com.br











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